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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

6 Tipos de atéismo

Há vários tipos de ateísmo:

  • O ateu tradicional acredita que não existe nem nunca existiu um Deus (v. Feuerbach, Ludwig; Freud, Sigmund; Sartre, Jean-Paul). 
  • Os ateus semânticos afirmam que o termo Deus está morto, que a linguagem religiosa não tem significado (v. Ayer, A. J.; acognosticismo). 
  • Os ateus mitológicos,representados por Nietzsche, afirmam que o mito Deus já esteve vivo, mas morreu no século xx. 
  • Os ateus conceituais acreditam que existe um Deus, mas está escondido da nossa visão, sendo obscurecido pelas nossas construções conceituais (v. Buber, Martin). 
  • Os ateus práticos afirmam que Deus existe, mas devemos viver como se não existisse, sem usar Deus como muleta para nossa in- capacidade de agir de maneira espiritual e responsável. 
  • Os ateus dialéticos acreditavam que Deus realmente existiu, mas morreu no nosso século. Altizer era um ateu dialético. 

Cético, ateu e agnóstico. Qual a diferença?

 o cético diz: “Eu duvido que Deus exista”

 o agnóstico declara “Eu não sei (ou não posso saber) se Deus existe”.

o ateu declara: "eu sei (ou pelo menos acredita) que Deus não existe".

 Para aprofundar :  http://lordisnotdead.blogspot.com.br/2015/09/agnosticismo-definicao-tipos-e-avaliacao.html


Agnosticismo- Definição, Tipos e Avaliação

Três alternativas básicas relativas ao conhecimento de Deus.
1.  Agnosticismo: não podemos saber nada sobre Deus; ele é incognoscível.
2.  Dogmatismo: podemos saber tudo sobre Deus; ele pode ser conhecido plenamente.
3.  Realismo: podemos saber alguma coisa, mas não tudo; Deus é parcialmente cognoscível.
A posição dogmática é improvável. É necessário ser infinito para conhecer plenamente o Ser infinito. Poucos teístas (provavelmente nenhum deles) defenderam seriamente esse tipo de dogmatismo.
Podemos saber o suficiente sobre a natureza da finitude para dizer que é impossível a seres finitos conhecer completamente um ser infinito (Realismo). Então, o cristão só tem controvérsia com o agnóstico pleno, que descarta na prática e na teoria todo conhecimento de Deus.

Definição de agnosticismo
 Este termo provém de duas palavras gregas (a, “não”; gnõsis “conhecimento”). 
O termo agnosticismo foi criado por T. H. Huxley. Significa literalmente “não-conhecimento”, o oposto de gnosticismo. Logo, o agnóstico é alguém que alega não conhecer. 


Tipos de agnosticismo
Quando aplicado ao conhecimento de Deus, há dois tipos básicos
de agnósticos: 
a- Forma Fraca: os que afirmam que a existência e a natureza de Deus não são conhecidas,  Isso, é claro, abre a possibilidade de conhecer a Deus e torna possível que alguns conheçam a Deus.

b- Forma Forte: os que acreditam que não se pode conhecer a Deus.
  
c- Iliimitado: afirma que tanto Deus quanto toda realidade são incognoscíveis. 

d- Limitado: afirma apenas que Deus é parcialmente incognoscível dadas as limitações da finitude e do pecado humanos. Esta segunda forma de agnosticismo pode ser admitida por cristãos como possível e desejável.
.
No entanto, os teístas (v. teísmo) às vezes argumentam
como se o agnosticismo parcial também fosse errado.
A forma que esse argumento assume e que o agnosticismo é errado simplesmente porque não se

Base filosófica do agnosticismo
As obras de David Hume (1711-1776) e Immanuel Kant (1724-1804) lançaram a base filosófica do
agnosticismo. Grande parte da filosofia moderna simplesmente pressupõe a validade geral dos tipos de argumentos que eles estabeleceram.
O ceticismo de Hume
0 próprio Kant era racionalista até que foi “despertado do sono dogmático” ao ler Hume. Tecnicamente falando as posições de Hume são céticas, mas servem aos propósitos agnósticos. O raciocínio de Hume baseia-se na afirmação de que há apenas dois tipos de afirmações significantes.
"Se tomarmos nas nossas mãos qualquer livro, de teologia ou metafísica, por exemplo, ele conterá qualquer raciocínio abstrato relativo a quantidade ou número? Não. Contém algum raciocínio experimental relativo aos fatos e à existência? Não. Então lance-o no fogo, pois não pode conter nada além de sofismas e ilusão ’’(Investigação sobre o entendimento humano).
Qualquer afirmação que não seja puramente a relação de idéias (definidoras ou matemáticas) por um lado, nem uma questão de fatos (empíricos ou reais), por outro, é insignificante. É claro que nenhuma das afirmativas sobre Deus se encaixa nessas categorias, logo o conhecimento de Deus torna-se impossível (v. ACOGNOSTICISMO).

Atomismo empírico. Além disso, todas as sensações são vivenciadas “totalmente soltas e separadas”. Conexões causais são feitas pela mente só depois de observada a conjunção constante dos elementos constantes da experiência. O que a pessoa realmente vivência é apenas uma série de sensações desconexas e separadas. Na verdade, não há conhecimento direto nem do próprio “eu”, porque tudo o que sabemos sobre nós mesmos é o conjunto desconexo de impressões sensoriais. Faz sentido falar de conexões feitas apenas na mente a priori ou independentemente da experiência. Então, a partir da experiência não pode haver conexões conhecidas e, certamente, não há conexões necessárias. Todas as questões experimentais implicam na possível realidade que lhe é contrária.

Causalidade baseada no costume. Segundo Hume, “todo raciocínio relativo a questões de fato parece ser fundamentado na relação de causa e efeito [...] Só por meio dessa relação podemos ir além da evidência da nossa memória e dos nossos sentidos” (Hume iv, p. 2. E o Conhecimento da relação de causa e efeito não é a priori, mas surge inteiramente a partir da experiência. Sempre há a possibilidade da falácia post hoc — ou seja, que certas coisas acontecem geralmente depois de outros eventos (até regularmente), mas não são realmente causadas por eles. Por exemplo, o sol nasce regularmente depois que o galo canta, mas certamente não porque o galo canta. Não é possível conhecer as conexões causais e, sem o conhecimento da Causa deste mundo, por exemplo, tudo o que resta ao indivíduo é o agnosticismo a respeito desse suposto Deus.

Conhecimento por analogia. Mesmo supondo que todo evento é causado, não podemos ter certeza sobre o que o causa. Assim, no famoso Diálogos sobre a religião natural, Hume defende que a causa do universo pode ser: 
1) diferente da inteligência humana, já que as invenções humanas são diferentes da natureza; 
2) finita, já que o efeito é finito e só é necessário inferir a causa adequada para o efeito; 
3) imperfeita, já que existem imperfeições
na natureza; 
4) múltipla, pois a criação do mundo se parece mais com o produto de tentativas e erros de muitas divindades em cooperação; 
5) masculina e feminina, já que essa é a maneira de os humanos serem gerados; 
6) antropomórfica, com mãos, nariz, olhos e outras partes do corpo como as de suas criaturas.
Logo, a analogia nos deixa no ceticismo sobre a natureza de qualquer suposta Causa do mundo.

Agnosticismo de Kant
As obras de Hume influenciaram muito o pensamento de Kant. Antes de lê- las, Kant defendia uma forma de racionalismo segundo a tradição de Gottfried Leibniz (1646-1716). Leibniz, bem como Christian Freiherrvon Wolff (1679-1754), que o seguiu, acreditava que a realidade podia ser conhecida
racionalmente e que o teísmo era demonstrável. 
Foram as obras de Kant que acabaram abruptamente com esse tipo de pensamento no mundo filosófico.
A impossibilidade de conhecer a realidade. Kant concedia à tradição racional de Leibniz uma dimensão racional, a priori, do conhecimento, ou seja, a forma de todo conhecimento é independente da experiência. Por outro lado, Kant concordava com Hume e com os empiristas que o conteúdo de todo tipo de conhecimento vinha por meio dos sentidos. A matéria-prima do conhecimento é fornecida pelos sentidos, mas a estrutura do conhecimento é adquirida posteriormente na mente. Essa síntese criativa resolvia o problema do racionalismo e do empirismo. No entanto, o resultado infeliz dessa síntese é o agnosticismo, pois, se não é possível saber nada antes que seja estruturado pela sensação (tempo e espaço) e pelas categorias do conhecimento (tais como unidade e causalidade), então não há como ir além do próprio ser e saber o que realmente era antes de o termos assim formado. Isto é, a pessoa só pode saber
o que o objeto é para ela, mas nunca o que ele de fato é. Somente o aspecto fenomenológico, mas não o numênico, pode ser conhecido. Devemos permanecer  agnósticos sobre a realidade. Só sabemos que algo existe, mas nunca saberemos o que é (Kant. p. 173ss.).

As antinomias da razão humana. Além de existir um abismo intransponível entre conhecer e ser, entre as categorias do nosso conhecimento e a natureza da realidade, contradições inevitáveis também resultam quando começamos a atravessar esse limite (Kant, p. 393ss.). Por exemplo, há a antinomia da causalidade. Se todas as coisas são causadas, então não pode haver uma causa inicial, e séries causais devem começar no infinito. Mas é impossível que a série seja infinita e também tenha começo. Esse é o paradoxo que resulta da aplicação da categoria da causalidade à realidade.
Esses argumentos não esgotam o arsenal do agnóstico, mas são a base do argumento “Deus não pode ser conhecido”. No entanto, mesmo alguns que não estão dispostos a admitir a validade desses argumentos optam pelo agnosticismo mais sutil. Tal é o caso da linha de pensamento chamada positivismo lógico.

Positivismo lógico. Também chamado empirismo lógico é uma filosofia de lógica e linguagem que procura
descrever toda realidade em termos sensoriais ou experimentais. Suas idéias originais foram desenvolvidas
pelo filósofo Auguste Comte. (1798-1857). Suas implicações teológicas foram descritas por A. J. Ayer (1910-1989) mediante seu “princípio da verificabilidade empírica”. Ayer alegava que seres humanos não podem analisar ou definir o Deus infinito, logo tudo o que se fala sobre Deus é tolice. A idéia de conhecer ou versar sobre um ser numênico é absurda.
Não se deve nem usar o termo Deus. Assim, até o agnosticismo tradicional é insustentável. O agnóstico pergunta se Deus existe. Para o positivista, a própria pergunta é insignificante. Assim, é impossível
ser agnóstico.
Por incrível que pareça, o acognosticismo de Ayer não negava automaticamente a possibilidade da experiênciareligiosa, como o agnosticismo. É possível experimentar Deus, mas esse contato com o infinito jamais poderia ser expresso de forma significativa, então
é inútil, exceto para o receptor dessa maravilha. O positivista lógico Ludwig Wittgenstein (1889-1951) talvez tenha sido mais coerente ao propor um tipo deísta de restrição ao pensamento positivista (v. deísmo). Se é improfícuo falar sobre Deus ou mesmo usar o termo, então qualquer ser infinito teria o mesmo
problema com relação ao que é físico. Wittgenstein negava que Deus pudesse estar preocupado com o mundo ou revelar-se a ele. Entre os âmbitos numênico e fenomenológico só pode haver silêncio. Em resumo, para os não-cognitivistas religiosos Ayer e Wittgenstein, o acognosticismo metafísico é o resultado final da análise da linguagem (v. analogia, princípio da ). 

Não-falsificável. Antony Flew desenvolveu uma filosofia agnóstica a partir de outra nuança das limitações
da linguagem e da consciência do divino. Pode ou não existir um Deus; não é possível provar qualquer das duas teses empiricamente. Então, não é possível acreditar legitimamente em nenhuma delas. Para ser verificável, um argumento deve ser capaz de ser demonstrado falso. Deus deve ser demonstrado, de um jeito ou de outro, para fazer diferença. A não ser que o teísta possa enfrentar esse desafio, a impressão que fica é que ele tem o que R. M. Elare denominou “blik”, ou falha de raciocínio (Flew, p. 100). Isto é,ele tem uma crença não-falsificável (portanto injustificada) em Deus, apesar de todos os fatos
ou condições circunstanciais.


Avaliação do Agnsoticismo
1- O Agnosticismo se contradiz
  • 0 agnosticismo completo reduz-se à afirmação auto destrutiva:  “conhecemos o suficiente sobre a realidade para afirmar que nada pode ser conhecido sobre ela”. Essa afirmação é contraditória. Quem sabe algo sobre a realidade não pode afirmar ao mesmo tempo que toda realidade é incognoscível. E quem não sabe absolutamente nada sobre a realidade não tem base para fazer uma afirmação sobre a realidade.
  • Não é suficiente dizer que o conhecimento da realidade só pode ser pura e completamente negativo, isto é, o conhecimento só pode dizer o que a realidade não é. Toda afirmação negativa pressupõe uma afirmação positiva; não se pode afirmar significativamente que alguma coisa não é e estar completamente desprovido de conhecimento dessa coisa. 
  • Conclui-se que o agnosticismo total é logicamente incoerente. Ele presume o conhecimento da realidade para negar todo o conhecimento dela.


2-O agnosticismo de Kant tem bases erradas
  • O argumento proposto por Kant de que as categorias de pensamento (tais como unidade e causalidade) não se aplicam à realidade também é falho. A não ser que as categorias da realidade correspondessem às categorias da mente, nenhuma afirmação poderia ser feita sobre a realidade, nem mesmo a afirmação feita por Kant. 
  • A não ser que o mundo real fosse inteligível, nenhuma afirmação sobre ele se aplicaria. 
  •  É necessária uma pré-formação da mente à realidade para falar algo sobre ela — positivo ou negativo. De outra forma, estaremos pensando sobre uma realidade inimaginável.
  •  Como alguém pode saber a diferença entre aparência e realidade se não viu o suficiente da aparência e da realidade para fazer a comparação?
  • Será possível saber que algo existe sem saber nada sobre ele? O conhecimento não implica algum conhecimento das características? Mesmo uma criatura estranha nunca vista anteriormente só poderia ser identificada se tivesse algumas características reconhecíveis como tamanho, cor ou movimento. Até algo invisível deve deixar algum efeito ou vestígio para ser observado. Não é preciso conhecer a origem ou função de uma coisa ou um fenômeno. Mas certamente ele foi observado, ou o observador não poderia saber que ele existe. Não é possível declarar que algo existe sem simultaneamente afirmar o que ele é. Além disso, Kant reconheceu no númeno [a coisa em si] a “fonte” incognoscível da aparência que recebemos. Tudo isso é informativo sobre o real; existe uma fonte real, essencial de impressões.

3-O ceticismo de Hume também é contraditório
  • .A tentativa cética geral de anular todo julgamento sobre a realidade também é contraditório, já que implica julgamento sobre a realidade. De que outra maneira alguém saberia que suspender todo julgamento sobre a realidade é o melhor caminho, a não ser que realmente soubesse que a realidade é incognoscível? O ceticismo implica agnosticismo; conforme demonstrado acima, o agnosticismo implica conhecimento sobre a realidade. 
  • O ceticismo ilimitado que elogia a suspensão de todo o julgamento sobre a realidade implica um julgamento demasiado abrangente sobre a realidade.
  • Em resumo, a distinção de Hume é a base para o princípio da verificabilidade empírica de Ayer, e o princípio da verificabilidade em si não é empiricamente verificável .
  • O atomismo empírico radical de Hume no qual todos os eventos são “completamente desconexos e separados”, e o próprio “eu” é apenas um amontoado de impressões sensoriais é inexeqüível. Se todas as coisas fossem desconectadas, não haveria nem como fazer essa afirmação específica, já que certa unidade e conexão são sugeridas na afirmação de que tudo é desconectado. Afirmar que “eu não sou nada além de impressões sobre mim mesmo” é contraditório, pois existe sempre a suposta unidade do “eu” que faz a afirmação. Mas não se pode assumir um “eu” unificado a fim de negá-lo
  • A justificativa da causalidade. Hume nunca negou o princípio da causalidade. Ele admitiu que seria absurdo afirmar que as coisas surgem sem uma causa (Hume, i. p. 187). O que ele de fato tentou negar foi a existência de qualquer maneira filosófica de estabelecer o princípio da causalidade. Se o princípio causal não é mera relação analítica de idéias, mas a crença baseada na conjunção habitual de eventos triviais, então não há necessidade dele. Não se pode usá-lo como justificativa filosófica. Já vimos, no entanto, que dividir todas as afirmações de conteúdo nessas duas classes é contraditório. Então, é possível que o princípio causal tenha conteúdo e seja necessário. A própria negação da necessidade causal implica a necessidade dela. A não ser que haja uma razão (ou causa) necessária para a negação, ela não é necessariamente válida. E se há uma razão ou causa para a negação, nessa eventualidade, seria usada uma conexão causal necessária para negar a existência conexões causais necessárias.
  • Um fundamento para a analogia. Da mesma forma, Hume não pode negar toda semelhança entre o mundo e Deus, porque isso implicaria que a criação deve ser totalmente diferente do Criador. Isso significaria que os efeitos devem ser completamente diferentes da causa. Essa afirmação também é autodestrutiva; a não ser que haja algum conhecimento da causa, não pode haver fundamento para negar toda semelhança entre a causa e o efeito. Mesmo a comparação negativa implica conhecimento positivo dos termos comparados.
  • As antinomias de Kant. Em cada uma das supostas antinomias de Kant há um erro. Não resulta em contradições inevitáveis falar sobre a realidade em termos de condições necessárias do pensamento humano. Por exemplo, é um erro opinar que tudo precisa de uma causa, pois nesse caso haveria uma infinidade de causas, e até Deus precisaria de uma causa. Apenas coisas limitadas, mutáveis e contingentes precisam de causas. Quando se chega ao Ser Necessário, ilimitado e imutável, não há mais necessidade de uma causa. O finito deve ser causado, mas o ser infinito não-causa- do. As outras antinomias de Kant também são inválidas

Observações:
  • É preciso ter cuidado aqui para não exagerar na conclusão desses argumentos. Uma vez demonstrado que o agnosticismo total é contraproducente, não segue ipso facto que Deus exista ou que se tenha conhecimento de Deus. 
  • Esses argumentos demonstram apenas que, se Deus existe, não se pode afirmar que ele não pode ser conhecido. Disso conclui-se apenas que Deus pode ser conhecido, não que sabemos algo sobre ele. A refutação do agnosticismo não é, então, a prova do realismo ou teísmo. O agnosticismo apenas se destrói e possibilita a formulação do teísmo cristão. 

.
Conclusão. Existem dois tipos de agnosticismo: o limitado e o ilimitado. O primeiro é compatível com as afirmações cristãs de conhecimento finito do Deus infinito. Mas o agnosticismo ilimitado é autodestrutivo: implica conhecimento sobre a realidade
para negar a possibilidade de sua existência. Tanto o ceticismo quanto os não-cognitivismos (acognosticismo) podem ser reduzidos ao agnosticismo. A não ser que seja impossível conhecer o real, é desnecessário abrir mão da possibilidade de qualquer conhecimento cognitivo ou dissuadir os homens de fazer qualquer julgamento sobre ele.
O agnosticismo ilimitado é uma forma sutil de dogmatismo. Ao descartar completamente a possibilidade
de qualquer conhecimento do que é real, ele fica no extremo oposto da posição que afirma o conhecimento
total da realidade. Ambos os extremos são dogmáticos. Ambos são posições obrigatórias relativas
ao conhecimento, contrastantes com a posição
de podermos saber ou sabermos algo sobre a realidade.
Simplesmente não há processo além da onis- ciência que permita fazer afirmações tão abrangentes e categóricas. O agnosticismo é dogmatismo negativo,
e todo negativo pressupõe um positivo. Logo, o agnosticismo total não é apenas autodestrutivo; é autodivinizador. Apenas a mente onisciente poderia ser totalmente agnóstica, e homens finitos evidentemente
não são onisciêncientes. Assim, a porta permanece
aberta para algum conhecimento da realidade.
A realidade não é incognoscível.
Fontes
J. Coi.i.ixs, God in modem philosophy, caps. 4 e 6.
A. Flbv, Theology and falsification, A. Fi.fw, et al., orgs., New essays in philosophical theology.
R. ?UKt,Agnosticism.
R. Garrk.ol -Lagranck, God: his existence and his nature.
S. Hackett, The resurrection oftheism. Parte 1.
D. HuMt,“A letter from a gentleman to his friend in Edinburgh”, em E. C. Mossner, et al., orgs.,
The letters o) David Hume.
___, Investigação sobre o entendimento
humano.
___, Diálogos sobre a religião natural.
T. H. Huxley, Collected essays, v. 5.
I. Kant, Crítica da razão pura.
L. Stephen, An agnostic’s apology.
J. Ward, Naturalism and agnosticism.

Deus existe? Cinco Razões para acreditar em Deus



1. A origem do universo.

2. O ajuste fino do universo a fim de sustentar vida inteligente.

3. A existência de padrões morais absolutos.

4. A vida, morte e ressurreição de Jesus.

5. A possibilidade de conhecer a Deus neste exato momento.


Por William Lane Craig

Tradução e adaptação: Vanderlei Ortigoza.
"C. S. Lewis comentou certa vez que a existência de Deus é muito mais que uma questão meramente interessante. Afinal, se Deus não existe, não há nenhuma razão para nos interessarmos por ele. Mas se existe, nosso maior objetivo de vida é nos relacionarmos com este ser do qual depende nossa existência.
Muitos consideram o assunto irrelevante. Quem pensa assim demonstra que não refletiu seriamente sobre o problema. Até mesmo filósofos ateístas como Sartre e Camus admitiram que a existência de Deus é importante para a humanidade. Proponho três razões para meditarmos sobre a importância de Deus.
Sem Deus, a vida não tem sentido
Imagine que não há vida após a morte. Nesse caso, pouco importa a maneira como vivemos, pois se não precisamos prestar contas de nossos atos a Deus, significa que ninguém será punido ou recompensado por suas ações. Do ponto de vista moral, nossa existência se torna irrelevante. É óbvio que a vida ainda possuiria significado relativo, no sentido de que influenciamos outras pessoas ou alteramos o curso da história. Algum dia, entretanto, o universo se esfriará por completo e tudo perecerá. Quando isso acontecer, não fará nenhuma diferença as contribuições dos cientistas para o avanço do conhecimento, as pesquisas médicas para aliviar a dor e o sofrimento, o empenho dos diplomatas para garantir a paz no mundo, o sacrifício para melhorar a qualidade de vida da humanidade etc.; tudo terá sido em vão.
Sem Deus, não há esperança
Ou melhor, sem Deus não há esperança de nos livrarmos do mal. Embora muitos questionem como um Deus bom pôde criar um mundo com tanta maldade, na verdade a maior parte do sofrimento é causada pelo próprio ser humano. Os horrores das últimas duas guerras mundiais destruíram a ingenuidade otimista do século XX quanto ao progresso moral da humanidade. Se Deus não existe, estamos presos a um mundo sem esperança, repleto de sofrimento gratuito e sem a menor condição de erradicarmos o mal.
Além disso, se não há Deus, não há como escaparmos do envelhecimento e da morte. Talvez os mais jovens tenham dificuldade para compreender isso, mas a menos que o indivíduo morra jovem, em breve travará uma guerra perdida tentando impedir o avanço inevitável do envelhecimento e das doenças (possivelmente incluindo a senilidade) e, ao final (se não há vida após a morte) deixará de existir. O ateísmo, portanto, é uma filosofia sem esperança.
Em contrapartida, se Deus existe a vida adquire significado e esperança, além da possibilidade de conhecê-lo e amá-lo pessoalmente. Pense em um Deus bom e infinito que deseja amá-lo e ser seu amigo. Que mais o ser humano poderia desejar? Se Deus existe, sem dúvida faz toda diferença acreditar nele, não apenas para a humanidade, mas para você e eu.
Apesar de nenhum desses argumentos provar de modo categórico a existência de Deus, demonstram que faz toda diferença se Deus existe. Ainda que as evidências a favor e contra fossem absolutamente iguais, creio que a atitude mais racional seria acreditar em Deus. Em outras palavras, se houvesse 50% de chance de Deus existir ou não, porque alguém escolheria a morte, a futilidade e o desespero em detrimento da esperança, do propósito e da alegria?
Entretanto, não acredito que as evidências sejam absolutamente iguais e quero expor cinco razões plausíveis para você acreditar em Deus. Muitos livros foram escritos sobre cada uma delas, de modo que minha intenção aqui é apenas apresentar um breve resumo. Todo ser humano possui em sua psique a vontade de procurar sentido nas coisas e compreender a realidade como ela é de fato. Observe que a existência de Deus faz sentido para explicar diversos fatos de nossa existência.

1. A existência de Deus explica a origem do universo
Alguma vez você se perguntou de onde surgiu o universo? Por que existe algo ao invés de nada? Alguns acreditam que o universo é eterno e ponto final. Mas essa não é uma resposta racional. Basta refletir: se o universo nunca teve um começo, significa que houve infinitos acontecimentos no passado. A matemática, entretanto, demonstra a incoerência de afirmar a existência real de um número infinito de coisas. Por exemplo, quanto é infinito menos infinito? De acordo com a matemática, o resultado é contraditório. Isso mostra que o infinito é apenas uma concepção mental e não algo que existe na realidade. David Hilbert, possivelmente um dos maiores matemáticos do século XX, afirma: "O infinito não existe no mundo real; não existe na natureza e não fornece base legítima para o pensamento racional. O infinito existe apenas no mundo das ideias." 1
Considerando que os acontecimentos passados não são imaginários, mas fatos reais, o número de acontecimentos passados não pode ser infinito, de modo que há apenas uma conclusão lógica: o universo teve um começo. Surpreendentemente, essa conclusão vem sendo confirmada pela ciência moderna por meio de várias descobertas astronômicas e astrofísicas. Hoje temos evidências concretas de que o universo não é eterno, mas teve um início cerca de 13 bilhões de anos atrás por meio de um evento cósmico conhecido como Big Bang. Esse evento deu origem ao universo literalmente a partir do nada, isto é, toda a matéria e energia, inclusive o próprio espaço e o tempo, passaram a existir a partir dessa "explosão". Conforme explica o físico P. C. W. Davies, "o surgimento do universo, de acordo com a ciência moderna [...] não se trata apenas de impor ordem [...] sobre um estado de caos anterior; antes, estamos falando do surgimento de todas as coisas físicas literalmente a partir do nada". 2
Várias teorias alternativas têm sido propostas ao longo dos anos para tentar contornar essa conclusão, porém a teoria do Big Bang continua sendo a única alternativa plausível na comunidade científica. De fato, em 2003 os cientistas Arvind Borde, Alan Guth e Alexander Vilenkin provaram que nenhum universo em estado de expansão cósmica pode existir eternamente, mas deve necessariamente ter um início absoluto. Vilenkin afirma:
Diz-se que o argumento convence homens racionais, e a prova convence até mesmo os irracionais. Agora que temos a prova, os cosmologistas não podem continuar a se esconder atrás da possibilidade de um universo eterno no passado. Não há escapatória, precisam enfrentar o problema do nascimento cósmico. 3
Anthony Kenny, professor da Universidade de Oxford, exprimiu a questão de modo contundente: "A menos que sejam ateístas, os proponentes da teoria do Big Bang são forçados a acreditar que o universo surgiu do nada"4 Essa ideia, entretanto, não faz sentido, pois não é possível algo surgir do nada. Então por que o universo existe, ao invés de nada? De onde surgiu? Deve ter havido uma causa que o produziu. Esse argumento pode ser resumido da seguinte maneira:
1. Tudo o que tem um começo tem uma causa.
2. O universo teve um começo.
3. Portanto, o universo tem uma causa.
Se as premissas 1 e 2 são verdadeiras, a conclusão é inevitável.
Considerando as circunstâncias envolvidas, esta causa que deu origem ao universo é uma entidade não-criada, imutável, eterna e imaterial. Não é criada porque, conforme observamos anteriormente, não é possível haver um regresso infinito de causas; é eterna (e, portanto, imutável, pelo menos em sua existência fora do universo) porque criou o tempo; e porque também criou o espaço, deve transcender a este; portanto, é um ser imaterial, isto é, não-físico.
Além disso, pode-se dizer que é um ser pessoal, pois de que outra maneira uma causa eterna produziria um efeito temporal como o universo? Se a causa fosse um conjunto inevitável e suficiente de estados e operações mecânicas, não poderia existir de modo independente do efeito. Por exemplo, a causa do congelamento da água está na diminuição da temperatura para menos de 0º centígrados. Se a temperatura tivesse permanecido abaixo de 0º centígrados desde o passado eterno, toda água que existe hoje estaria congelada desde a eternidade; nesse caso, seria impossível que a água tivesse começado a congelar apenas em um período finito de tempo atrás. Portanto, se a causa existe continuamente, o efeito também deve existir continuamente. A única forma de uma causa ser eterna e seu efeito ter início em determinado momento é supor que se trata de um agente pessoal que escolheu livremente produzir um efeito no tempo, sem nenhuma relação com circunstâncias predeterminadas. Por exemplo, um homem sentado eternamente pode decidir levantar-se. A partir disso inferimos não apenas uma causa transcendente para o universo, mas o próprio Criador.
É um fato extraordinário que a teoria do Big Bang confirme exatamente aquilo que os cristãos sempre acreditaram: no princípio, criou Deus o universo. Qual conclusão parece mais sensata: Deus criou o universo ou este surgiu do nada, sem causa?
2. A existência de Deus explica o ajuste fino do universo para sustentar vida inteligente
Durante os últimos 40 anos os cientistas descobriram que a existência de vida inteligente depende de um equilíbrio complexo e delicado de condições iniciais que surgiram com o Big Bang. Inicialmente os cientistas acreditavam que, independente de quais fossem as condições iniciais, mais cedo ou mais tarde a vida inteligente teria evoluído por si mesma. Hoje, porém, sabemos que a existência de vida inteligente depende de um conjunto inicial de condições ajustadas a uma proporção incompreensível e incalculável.
Este ajuste fino do universo aparece sob duas formas. Primeiro, ao expressarmos as leis da natureza na forma de equações matemáticas, observamos certas constantes, como a constante gravitacional. As constantes não são determinadas pelas leis da natureza, pois estas são compatíveis com uma ampla extensão de valores para aquelas. Segundo, além dessas constantes, existem certas quantidades arbitrárias estabelecidas a partir das condições iniciais que deram origem às leis da natureza (por exemplo, a entropia e o equilíbrio entre matéria e antimatéria no universo). Todas estas constantes e quantidades se encaixam num âmbito estreitíssimo de valores capazes de sustentar vida. Caso fossem alteradas apenas um milésimo, o equilíbrio seria destruído e a vida não existiria.
O físico Paul Davies calculou que uma pequena mudança de uma parte em 10100 na força gravitacional ou na força nuclear fraca seria o suficiente para impedir o surgimento da vida no universo. A constante cosmológica que impulsiona a inflação do universo (também responsável pela recém descoberta aceleração de expansão do universo) é fixada de modo inexplicável em torno de uma parte para 10120. Roger Penrose, da Universidade de Oxford, calculou que a possibilidade de a baixa entropia do Big Bang existir por acaso é da ordem de um para 1010(123). Penrose comenta: "Não consigo pensar em nenhuma outra coisa na física cuja precisão se aproxime, ainda que remotamente, de uma cifra como 1 parte para 1010(123)".5 E não se trata simplesmente de cada uma dessas constantes ou quantidades apresentar ajustes exatos; é preciso que suas proporções entre si também sejam ajustadas. Como se vê, são improbabilidades multiplicadas por improbabilidades, gerando números incompreensíveis que desorientam a mente.
três possibilidades para explicar a presença desse extraordinário ajuste fino no universo: necessidade física, acaso ou planejamento. A primeira alternativa aposta na descoberta da "teoria sobre tudo" que poderia explicar o universo como um todo. Em linhas gerais, essa teoria propõe que tudo que existe deve acontecer exatamente da forma como observamos, de modo que não há possibilidade de o universo não ser ajustado para permitir vida. A segunda opção, ao contrário, declara que o ajuste do universo ocorreu por acaso: ou seja, é mera coincidência o fato de a vida ter surgido nesse universo (como diriam alguns: "Tivemos muita sorte!"). A terceira alternativa rejeita as anteriores e propõe a existência de uma mente inteligente por trás do planejamento cósmico, isto é, alguém planejou o universo com o objetivo específico de permitir o desenvolvimento de vida inteligente.
Em busca do razoável
A primeira alternativa (declarando que não há qualquer razão física para os valores verificados nas constantes) parece demasiado implausível. Conforme declara Paul Davies:
"Mesmo que as leis da física fossem singulares, disso não procede que o universo físico seja singular em si mesmo [...] às leis da física devemos acrescentar as condições cósmicas iniciais [...] Não há nada nos atuais conceitos de 'leis das condições iniciais' sugerindo, mesmo remotamente, que sua consistência com as leis da física implique singularidade. Pelo contrário [...] parece, portanto, que não há necessidade de o universo ser do jeito que é; poderia ter sido diferente"6
Por exemplo, o candidato mais promissor à TT (teoria sobre tudo, teoria das supercordas ou teoria-M) não prevê a singularidade de nosso universo. Na verdade, a teoria das supercordas permite algo em torno de 10500 universos diferentes que poderiam ser governados pelas atuais leis da natureza, nada contribuindo para explicar os valores e quantidades indispensáveis ao nosso universo.
Quanto à segunda alternativa propondo que o ajuste fino do universo surgiu por acaso, a probabilidade do surgimento espontâneo de um universo capaz de sustentar vida é tão minúscula que não pode ser considerada do ponto de vista racional. Mesmo que exista um "cenário cósmico" e esse contenha enormes quantidades de universos favoráveis à vida, ainda assim o número desses universos seria incomensuravelmente minúsculo em comparação ao total, a ponto de sua existência ser absurdamente improvável. Mesmo assim, alguns costumam dizer: "Mas poderia ter acontecido!". Quem pensa assim nunca parou para refletir sobre a extraordinária exatidão do ajuste fino necessário à vida. Essa pessoa nunca aplicaria a hipótese do acaso a nenhuma outra área de sua vida (por exemplo, ninguém recorreria ao acaso para explicar, ao acordar pela manhã, o aparecimento de um carro na garagem que estava vazia na noite anterior).
Alguns tentam escapar do problema dizendo que não deveríamos ficar surpresos com o ajuste fino do universo, pois se não tivesse acontecido, não estaríamos aqui para nos surpreender. Ora, é evidente que estamos aqui; portanto, era de se esperar que o universo fosse ajustado para nos receber. Esse raciocínio, todavia, é uma falácia que pode ser facilmente demonstrada por meio de uma analogia. Imagine que você está em viagem no exterior e de repente é preso por um policial que lhe acusa de porte de drogas. Sem qualquer explicação, o oficial o conduz para ser executado diante de 10 atiradores treinados, todos apontando armas para o seu coração. Alguém grita a ordem: "Preparar! Apontar! Fogo!"; você ouve o barulho ensurdecedor dos disparos e momentos depois percebe que continua vivo e sem nenhum arranhão, pois todos os atiradores erraram! Qual seria sua conclusão? Será que pensaria: "Não devo ficar surpreso. Afinal, se não tivessem errado eu não estaria aqui para ficar surpreso. Como ainda estou vivo, era de esperar que todos errassem". Sem dúvida não é isso o que pensaria. Pelo contrário, sua primeira reação seria suspeitar que os atiradores erraram de propósito e tudo não passou de uma armação. Você não ficaria surpreso se pudesse observar que está morto, mas certamente ficaria bastante surpreso se percebesse que está vivo! Da mesma forma, considerando a gigantesca improbabilidade do ajuste fino observado no universo, a atitude mais racional é concluir que não aconteceu por acaso, mas por planejamento.
A fim de resgatar o acaso, entretanto, os proponentes dessa teoria foram forçados a aderir à hipótese da existência de um número infinito de universos aleatórios agrupados dentro de uma espécie de multiverso onde nosso universo estaria inserido. De acordo com essa teoria, em algum lugar nesse multiverso infinito seria possível surgir, por acaso, universos cujas leis da natureza permitissem o desenvolvimento da vida, exatamente como aconteceu conosco. Essa hipótese, contudo, apresenta no mínimo duas falhas gravíssimas.
Em primeiro lugar, não temos nenhuma evidência de um multiverso. Aliás, não há como provar a existência de outros universos. Ademais, convém lembrar a demonstração de Borde, Guth e Vilenkin, provando que qualquer universo em estado de expansão cósmica contínua não pode ter existido desde o passado infinito. Esse teorema também se aplica ao multiverso. Considerando que o passado é finito, apenas um número finito de universos poderia ter surgido até esse momento. Por conseguinte, não há como saber se universos capazes de sustentar vida poderiam emergir desse multiverso.
Em segundo lugar, se nosso universo fosse um membro aleatório de um conjunto infinito de universos, haveria uma probabilidade gigantesca de vivermos em um universo muito diferente do que de fato observamos. Roger Penrose calculou que a probabilidade de nosso sistema solar formar-se por meio de colisões aleatórias de partículas é muito maior que o surgimento espontâneo de um universo capaz de sustentar vida. 7 Portanto, se nosso universo fosse um membro desse multiverso, haveria uma probabilidade enorme de estarmos vivendo em um universo não muito maior que nosso sistema solar. Além disso, a essa altura seria possível observar acontecimentos extraordinários, como cavalos alados surgindo e desaparecendo por meio de colisões aleatórias ou máquinas de movimento perpétuo, uma vez que a ocorrência dessas manifestações seria muito mais provável que todas as constantes e quantidades das leis da natureza surgirem por acaso a partir de um número praticamente infinitesimal de universos capazes de sustentar vida. Universos esdrúxulos como esses seriam mais abundantes nesse multiverso que mundos como o nosso, de modo que já deveríamos tê-los observado. A ausência de tais observações demonstra a invalidade da hipótese do multiverso. É muito provável, portanto, que esse multiverso não exista (pelo menos de acordo com a concepção ateísta).
Portanto, a concepção cristã (o universo foi planejado por um ser inteligente) faz mais sentido que a concepção ateísta (o universo surgiu por acaso). Este segundo argumento pode ser resumido da seguinte forma:
1. O ajuste fino do universo se deve a uma de três alternativas: necessidade física, acaso ou planejamento.
2. Verifica-se que não surgiu por necessidade física ou acaso.
3. Portanto, ocorreu por planejamento.

3. Deus faz sentido para explicar a existência de um padrão moral absoluto
Essa concepção se refere à distinção entre o certo e o errado, independente de lugar, época, cultura e opiniões. Por exemplo, é afirmar que o antisemitismo nazista era moralmente errado, ainda que os idealizadores do holocausto acreditassem que era bom. E continuaria sendo errado, mesmo que os nazistas tivessem ganhado a segunda guerra mundial e conseguissem exterminar ou fazer lavagem cerebral em todas as pessoas que não concordassem com eles. Mas se Deus não existe, então os valores morais absolutos também não existem.
Muitos teístas (e ateístas) concordam nesse ponto. Por exemplo, J. L. Mackie, da Universidade de Oxford, um dos mais influentes ateístas de nosso tempo, admite: "Se [...] existem [...] valores morais absolutos, eles tornam mais provável a existência de Deus do que se não existissem"8 Porém, a fim de desconsiderar a existência de Deus, Mackie nega que existam valores morais absolutos: "É fácil explicar esse senso moral como sendo produto espontâneo da evolução biológica e social". 9 Michael Ruse, filósofo da ciência, concorda e explica:
"A moralidade é uma adaptação biológica, da mesma forma que mãos, pés e dentes. A ética, considerada como justificação racional de um conjunto de afirmações objetivas sobre algo, é ilusória. Aprecio quando alguém diz 'ame o próximo como a ti mesmo', imaginando com isso referir-se a algo acima e além de si mesmo. Todavia, essa referência não tem fundamento. A moralidade é apenas uma ferramenta de sobrevivência e reprodução [...] E qualquer sentido mais profundo é ilusório"10
Friedrich Nietzche, proeminente ateísta do século XIX que anunciou a morte de Deus, entendeu que essa morte significava a destruição de todo o sentido e valor da vida. Acredito que Nietzche estava certo.
Entretanto, precisamos responder uma questão fundamental, e essa questão não é: "Devemos acreditar em Deus para termos uma vida moral?", pois não estou afirmando que devemos. Nem tampouco a questão é: "Podemos reconhecer valores morais objetivos sem acreditar em Deus?", pois acredito que podemos.
Antes, a questão fundamental é: "Se Deus não existe, como afirmar a existência de valores morais absolutos?" Se Deus não existe, conforme afirmam Mackie e Ruse, então não vejo razão para considerar a objetividade da moral humana. Afinal de contas, se Deus não existe, o que torna os seres humanos tão especiais? Nesse caso, seríamos apenas resultado de um acidente da natureza, criaturas imperfeitas evoluindo em uma minúscula partícula de pó perdida em um canto qualquer de um universo hostil e negligente, fadados a perecer em um espaço relativamente curto de tempo. Na cosmovisão ateísta, o estupro, por exemplo, era considerado algo desvantajoso do ponto de vista social, de modo que se tornou tabu durante o curso da evolução. Essa concepção, todavia, nada contribui para demonstrar que o estupro é uma perversidade moral. Excetuando-se as consequências sociais, a cosmovisão ateísta não oferece nenhum apoio para afirmar que o estupro é algo absolutamente errado. Se Deus não existe, então não há referencial de padrões morais absolutos ao qual submeter nossa consciência.
A verdade, porém, é esta: valores morais absolutos existem de fato, algo que todos reconhecemos em nossa consciência. Não há nenhuma razão para negarmos a realidade desses valores absolutos, assim como não há razão para negarmos a realidade objetiva do mundo material. O raciocínio exposto por Ruse apenas prova, na melhor das hipóteses, que evoluímos em nossa percepção subjetiva dos valores morais absolutos. Ora, se os valores morais estão sendo descobertos gradualmente, e não inventados, nossa percepção gradual e falível da esfera moral em nada altera sua realidade objetiva, assim como nossa percepção gradual e falível do universo físico não altera a realidade objetiva da matéria. A maioria das pessoas concorda com a existência de valores morais absolutos e o próprio Ruse confessa: "O homem que acredita que estuprar criancinhas é algo moralmente aceitável está tão errado quanto quem afirma que 2+2=5". 11
Estupro, tortura e abuso de crianças não são apenas comportamentos socialmente inaceitáveis: são abominações morais. Em contrapartida, o amor, a lealdade e o sacrifício são virtudes morais verdadeiramente boas. Portanto, se entendemos que existem valores morais absolutos e que estes não podem existir sem Deus, a conclusão lógica e incontestável é que Deus existe. Esse argumento pode ser resumido da seguinte maneira:
1. Se Deus não existe, então os valores morais absolutos também não existem.
2. Contudo, sabemos que existem valores morais absolutos.
3. Portanto, Deus existe.
4. Deus faz sentido para explicar os fatos históricos sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus
Jesus Cristo foi um indivíduo notável. Críticos do Novo Testamento têm chegado a um consenso de que existiu uma pessoa histórica chamada Jesus de Nazaré e que este possuía um senso de autoridade divina singular: falava como se fosse o próprio Deus. Por causa disso, a liderança judaica da época incitou sua crucificação, acusando-o de blasfêmia. Jesus afirmava que o reino de Deus finalmente havia chegado ao mundo em sua pessoa. Como demonstração desse fato, realizou um ministério de milagres e exorcismos. A confirmação definitiva de suas alegações, entretanto, ocorreu em sua ressurreição. Se Jesus de fato ressurgiu dos mortos, trata-se de um milagre sem precedentes e, portanto, clara evidência da existência de Deus.
Muitas pessoas pensam que a ressurreição de Jesus é algo que devemos aceitar ou não somente pela fé. Na verdade, há três fatos históricos estabelecidos e reconhecidos pela maioria dos historiadores do Novo Testamento, fatos que considero as melhores explicações para a ressurreição de Jesus: o túmulo vazio, seus aparecimentos e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição. Verifiquemos rapidamente cada um desses fatos.
Fato 1. O túmulo de Jesus foi encontrado vazio no domingo de manhã por um grupo de mulheres discípulas
De acordo com Jacob Kremer, estudioso australiano que se especializou no estudo da ressurreição: "a maioria dos estudiosos considera firmemente confiável o relato bíblico sobre o túmulo vazio". 12 De acordo com D. H. Van Daalen, é muito difícil refutar o túmulo vazio em termos históricos e aqueles que negam esse fato em geral o fazem com base em conjecturas teológicas ou filosóficas.
Fato 2. Em ocasiões distintas, grupos e indivíduos diferentes viram Jesus vivo após sua morte
De acordo com Gerd Lüdemann, proeminente crítico do Novo Testamento: "Pode-se considerar historicamente confiável as experiências de Pedro e os discípulos após a morte de Jesus, onde este apareceu como o Cristo ressurreto". 13 Estes aparecimentos foram testemunhados não apenas por seus discípulos, mas também por incrédulos e até mesmo inimigos.
Fato 3. Os discípulos que andaram com Jesus passaram repentinamente a acreditar em sua ressurreição, apesar de predisposição em contrário
Após a crucificação e morte de Jesus, os discípulos perderam o ânimo. Isso porque os judeus não concebiam o Messias como alguém que, ao invés de triunfar sobre os inimigos de Israel, teria de sofrer e morrer de forma vergonhosa, como um criminoso. Ademais, a crença judaica sobre a vida após a morte não lhes permitia imaginar que alguém pudesse voltar dos mortos antes da ressurreição geral estipulada somente para o fim dos tempos.
Todavia, os discípulos passaram a acreditar tão firmemente que Deus havia ressuscitado Jesus dentre os mortos que estavam dispostos a morrer por isso. Luke Johnson, estudioso do Novo Testamento na Universidade de Emory, declara: "É necessário uma experiência poderosa, transformadora, para produzir o tipo de movimento que deu origem ao cristianismo primitivo". 14 N. T. Wright, proeminente estudioso britânico, conclui: "É por essa razão que, como historiador, não posso explicar o surgimento do cristianismo primitivo a menos que Jesus tenha ressuscitado, deixando um túmulo vazio atrás de si". 15
Todas as teorias para explicar estes três fatos (p.ex., que os discípulos roubaram o corpo ou que Jesus não morreu de verdade) foram universalmente rejeitadas pela erudição contemporânea. Não há nenhuma explicação naturalista plausível que explique esses acontecimentos. O teísta cristão, portanto, está plenamente justificado em acreditar que Jesus ressuscitou dos mortos e de fato era quem afirmava ser. A partir disso podemos inferir a existência de Deus por meio do seguinte argumento:
1. Há três fatos históricos acerca de Jesus de Nazaré: a descoberta de seu túmulo vazio, seus aparecimentos post mortem e a origem da crença dos discípulos em sua ressurreição.
2. A hipótese "Deus ressuscitou Jesus dos mortos" é a melhor explicação para estes fatos.
3. A hipótese "Deus ressuscitou Jesus dos mortos" implica que o Deus revelado por Jesus de Nazaré existe.
4. Portanto, o Deus revelado por Jesus de Nazaré existe.
5. Podemos conhecer a Deus e nos relacionar com ele, neste exato momento
Esta declaração não é exatamente um argumento para a existência de Deus. Antes, trata-se de um convite para que você mesmo verifique a existência de Deus de forma prática e independente de qualquer argumento. Para isso, basta apenas falar com ele, agora mesmo. Essa era a forma como as pessoas na Bíblia conheciam a Deus. Conforme explica o professor John Hick:
"As pessoas conheciam a Deus por meio de uma interação dinâmica da vontade divina com as suas, uma realidade absoluta e incontestável, tal qual a chuva e a luz do sol [...] Não pensavam em Deus como uma entidade a ser inferida, mas como uma realidade a ser experimentada. Para eles, Deus não era [...] uma ideia concebida pela mente, mas uma experiência real que conferia significado à vida". 16
Os filósofos chamam esse relacionamento com Deus de "crença básica adequada", isto é, crenças que não são baseadas em outras crenças; antes, estão fundamentadas em um sistema de crenças pessoais. Por exemplo, a crença na realidade do passado, a existência de um mundo material exterior ao indivíduo e a crença na presença de mentes iguais a nossa. Se refletir sobre essas crenças, perceberá que nenhuma delas pode ser provada cientificamente. Tente imaginar de que forma você poderia provar que o mundo não surgiu apenas 5 minutos atrás, um universo inteiro criado instantaneamente com a aparência de existir a milhares de anos, incluindo até mesmo comida em nosso estômago de uma refeição que nunca consumimos, além de memórias em nosso cérebro de acontecimentos que nunca experimentamos? Ou ainda, como você poderia provar que não é um cérebro preso dentro de um supercomputador que simula todos os seus sentidos e percepções?
Embora sejam chamadas de crenças básicas, não significa que sejam arbitrárias. Pelo contrário, são crenças fundamentais no sentido de que surgem dentro de um contexto de certas experiências. Por exemplo, minhas experiências sensoriais em termos de visão, audição e tato me possibilitam construir, de modo natural, a crença na existência de objetos físicos. Não se trata, portanto, de uma crença arbitrária. Antes, está fundamentada em minhas experiências. Talvez não seja possível provar determinada crença, mas nem por isso deixa de ser perfeitamente racional para o indivíduo que nela crê. Em outras palavras, seria preciso que o mundo enlouquecesse para imaginar que o universo foi criado apenas 5 minutos atrás, ou que somos apenas cérebros presos a circuitos eletrônicos.
Portanto, crenças baseadas em experiências de vida não são apenas básicas, mas adequadas. A fé em Deus se enquadra nessa categoria, pois se trata de uma crença fundamentada em experiências pessoais com o Criador. Esse argumento pode ser resumido da seguinte forma:
1. Toda fé adequada e fundamentada pode ser aceita racionalmente como crença básica, independente de argumentos.
2. A crença de que o Deus da Bíblia existe é adequada e fundamentada.
3. Portanto, a crença de que o Deus da Bíblia existe pode ser aceita racionalmente como crença básica, independente de argumentação.
Caso todo o exposto acima esteja correto, existe o perigo de os argumentos a favor da existência de Deus distraírem a atenção das pessoas com relação ao próprio Deus. Se você busca a Deus com sinceridade, ele se mostrará evidente para você. A Bíblia afirma: "Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós outros" (Tiago 4.8). Não devemos focalizar toda nossa atenção nas provas a ponto de não ouvirmos a voz de Deus falando conosco. Para quem estiver disposto a ouvir, Deus se tornará uma realidade viva e imediata.
Concluindo, estudamos cinco razões para acreditar na existência de Deus.
1. A origem do universo.
2. O ajuste fino do universo a fim de sustentar vida inteligente.
3. A existência de padrões morais absolutos.
4. A vida, morte e ressurreição de Jesus.
5. A possibilidade de conhecer a Deus neste exato momento.
Esses argumentos fazem parte de um conjunto de evidências a favor da existência de Deus. Alvin Plantinga, proeminente filósofo contemporâneo, apresentou mais de vinte argumentos a favor da existência de Deus. 17 Considerados em conjunto, esses argumentos formam um corpo de evidências cumulativas bastante convincente. O teísmo cristão, portanto, é uma cosmovisão plausível e deve ser analisado com cuidado por todo ser humano racional.

 Notas
1 David Hilbert, "On the Infinite", Philosophy of Mathematics, ed. com introdução de Paul Benacerraf e Hillary Putnam, Englewood Cliffs, N.J.: Prentice-Hall, 1964, pp. 139, 141.
2 ABC Science Online, "The Big Questions: In the Beginning". Entrevista com Paul Davies, por Philip Adams, http://aca.mq.edu.au/pdavies.html.
3 Alex Vilenkin, Many Worlds in One: The Search for Other Universes, New York: Hill e Wang, 2006, p. 176.
4 Anthony Kenny, The Five Ways: St. Thomas Aquinas' Proofs of God's Existence, New York: Schocken Books, 1969, p. 66.
5 Roger Penrose, "Time-Asymmetry and Quantum Gravity", Quantum Gravity 2, ed. C. J. Isham, R. Penrose, e D. W. Sciama, Oxford: Clarendon Press, 1981, p. 249.
6 Paul Davies, The Mind of God, New York: Simon & Schuster, 1992, p. 169.
7 Ver Roger Penrose, The Road to Reality, New York: Alfred A. Knopf, 2005, pp. 762-5.
8 J. L. Mackie, The Miracle of Theism, Oxford: Clarendon Press, 1982, pp. 115-16.
9 Idem, pp. 117-18.
10 Michael Ruse, "Evolutionary Theory and Christian Ethics", The Darwinian Paradigm, London: Routledge, 1989, pp. 262-269.
11 Michael Ruse, Darwinism Defended, London: Addison-Wesley, 1982, p. 275.
12 Jacob Kremer, Die Osterevangelien--Geschichten um Geschichte, Stuttgart: Katholisches Bibelwerk, 1977, pp. 49-50.
13 Gerd Lüdemann, What Really Happened to Jesus?, trad. por John Bowden, Louisville, Kent.: Westminster John Knox Press, 1995, p. 8.
14 Luke Timothy Johnson, The Real Jesus, San Francisco: Harper San Francisco, 1996, p. 136.
15 N. T. Wright, "The New Unimproved Jesus", Christianity Today, 13 de setembro de 1993, p. 26.
16 John Hick, "Introduction", The Existence of God, ed. com introdução de John Hick, Problems of Philosophy Series, New York: Macmillan Publishing Co., 1964, pp. 13-14.
17 Alvin Plantinga, "Two Dozen (or so) Theistic Arguments". Preleção apresentada na 33ª Conferência Anual de Filosofia, Wheaton College, Wheaton, Illinois, 23-25 de outubro de 1986. Disponível online em http://philofreligion.homestead.com/files/Theisticarguments.html."


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